domingo, 19 de abril de 2009

Marcas.


Um dia estava a ter uma conversa daquelas de bar de faculdade com as minhas amigas e, não me recordo a que propósito, a conversa descambou em cicatrizes, porque uma delas tinha sido recentemente submetida a uma cirurgia estética parece.
A dada altura, uma das meninas do grupo sai-se com um "Que nojo! Detesto cicatrizes! Fazem-me impressão! Ai, preferia morrer a ficar com uma enorme!". E eu fiquei assim, embasbacada, com o ar mais aparvalhado do mundo a olhar p'ra ela, perante tamanha estupidez. O que me veio à boca naquele momento foi só um "Por amor de deus... tem dó... tu és louca! Espera aí que quem as tem é porque gosta!". E ela, não contente, continuou a defender a sua tese.
Eu, a determinada altura, já um bocado enojada com aquela conversa que achei simples e absolutamente estúpida, disse-lhe "Ouve lá, e se o teu namorado tivesse de fazer uma operação e ficasse com uma grande cicatriz? E aí, queres ver que o deixavas, não?!"
... a resposta foi medonha: "Olha... se a cicatriz fosse muito grande e muito feia... sei lá, mas imagina que era assim pelas costas a fora... ai eu não conseguia!".
Caiu-me tudo. É assustador pensar que há gente assim. É assustador pensar que convivo com gente assim. E é sobretudo assustador pensar que há gente capaz de deixar alguém ou de não conseguir estar com alguém com marcas de que a vida é fodida às vezes...
Entendo as cicatrizes e todas as imperfeições que nos vão aparecendo no corpo como um sinal de que estamos vivos, porque provavelmente se não tivessemos aquela cicatriz de uma operação estávamos mortos; se não tivessemos aquela cicatriz da cesariana, então o nosso filho poderia não ter nascido bem; and so on...
É verdade que há médicos que são autênticos talhantes e pensam que estão a ter uma aula de corte e costura e toca a fazer o trabalho sem ter o mínimo sentido estético... mas há coisas tão mais importantes... Cada marca que tenho é um pedaço do que já vivi... A que tenho no braço, por exemplo, só mostra que adoro cães mas que eles às vezes se passam; a que tenho no joelho é sinal de que a minha irmã andava mal p'ra caraças de bicicleta e que me projectou pelos ares; a que tenho na boca é sinal de que não devia ter arrancado a casca a uma ferida... :) E paciência, né?

Antes com imperfeições físicas do que perfeitos e lindinhos no caixão.

2 comentários:

Puzz disse...

e ainda há aquelas que dão charme... aquelas que lembram um acto heróico... aquelas que lembram uma estupidez a evitar...

por acaso não tenho nenhuma significativa... mas acho algumas engraçadas. (em forma de estrela, por exemplo) :)

Ana disse...

As de forma de estrela são das mais importantes que conheço. :)