quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Do esforço

Acabei de escrever este texto abaixo num outro blogue, a propósito dos filhos que sobrecarregam os pais (sobretudo no tempo de faculdade) e nem querem saber se eles estão desesperados com falta de dinheiro ou não, se passam fome para lhes pagar as propinas... enfim, sobre filhos de merda. Escrevi sobretudo porque alguém respondeu que não trabalha "porque está em medicina que não é um curso propriamente fácil" (mas paga as propinas e outros luxos com a mesada que os pais dão, menos mal...):

"Eu tirei direito e também não é um curso propriamente fácil. Cheguei a trabalha a full-time na PT a atender telefones. Ia para a faculdade das 09h ao fim da manhã, às 13h. Pedia às minhas colegas que me tirassem apontamentos. Pegava a trabalhar às 13h30 e trabalhava a 15 minutos de metro da faculdade. Corria, literalmente, para apanhar o metro às 13h15. Tinha na bolsa uma sandes e um sumo que comia no metro a caminho do trabalho. Pegava às 13h30 em ponto e trabalhava até às 22h. Tinha uma hora de pausa, comia nas retretes do trabalho e pintava lá as unhas, porque à noite não tinha tempo. Vinha às 22h sozinha à noite para casa. Chegava a casa, as minhas colegas já me tinham mandado os apontamentos pelo pc (faziamo-los no pc). Estava sempre até à uma da manhã a fazer isso. No dia a seguir estava de novo às 9h na faculdade. Trabalhava se segunda a sábado. Não ia a casa muitas vezes porque não tinha tempo, e quando tinha hipótese só estava em casa domingo de manhã e de tarde voltava ao Porto.

Não me falem em cursos difíceis e não me digam que não se pode. Hoje tenho um negócio próprio e continuo a trabalhar 7 dias por semana. E estou viva."

Quase me vieram as lágrimas aos olhos ao escrever sobre este período, que para mim durou apenas uns meses mas para outras pessoas dura anos e anos... Cheguei a um ponto de tanto cansaço que lembro-me de um dia, num domingo, estar deitada na cama da minha mãe a chorar e ela me ter dito "amanhã vais-te demitir e acabou essa merda, eu ajudo-te". E demiti-me, comecei a trabalhar em promoções ao fim-de-semana e a coisa acalmou, também porque entretanto no mês a seguir a me ter demitido tenham acabado as aulas e eu tenha voltado para Viana por 3 meses e não precisássemos de tanto dinheiro.
Ainda bem que isto aconteceu, tenho a certeza que me tornou muito mais forte em tudo.

23 comentários:

joana disse...

Conheço imensas alunas da faculdade de direito do porto, porque estudava lá perto e com as quais colegas do meu curso viviam e elas mesmo consideram que o curso de direito é muito mais acessível do que qualquer curso de saúde. Vocês têm um trabalho essencialmente focado na época de exames, os restantes não funcionam assim. Esse tipo de trabalho seria impossível em saúde porque faltarias a numerosas aulas práticas e de grupo, pelo que reprovarias automaticamente de ano.

Cris disse...

é verdade joana. O que não tira o mérito, claro.

Entretanto isso faz-me pensar na importância das escolhas, nomeadamente de um curso superior.Q curso e porquê.

GATA disse...

O que não nos mata, torna-nos mais fortes!!! E o resultado está à vista, minha querida! :-)

Turrinhas da GATA!

Conto de Fadas disse...

Joana, não sei como é que alguém que não frequentou ambos os cursos pode opinar sobre essa matéria. A minha irmã tinha um curso muito prático, não podia faltar a aulas (a menos que tivesse estatuto trablhador-estudante, certo? Se precisar mesmo de trabalhar, toda a gente pode) e tinha testes e trabalhos todo o ano. Se acho que o curso dela era mais difícil que o meu? Não, não acho. A componente prática não tem nada a ver...

Tenho uma colega que entrou com 19.4 na faculdade. Já está pela 3º ano seguido a repetir o mesmo ano em Direito, pelo que me parece que o curso de fácil não tem absolutamente nada. É muitíssimo difícil sim, e realmente se as suas colegas só estudavam nos exames e passavam, sorte a delas mesmo... eu fazia apontamentos durante horas todos os dias (acerto dos das aulas, resumo de livros e códigos), mas também por isso nunca chumbei a uma cadeira.

Carla disse...

Ai o que eu gosto deste tema!

É que depois toda a gente acha que o seu curso é que é difícil!

Oh pá, vão trabalhar!!!

E eu nem falo da minha experiência, que não vale a pena...os cursos de saúde é que são difíceis...

Conto de Fadas disse...

São todos poças, depende da nossa vocação... para mim se me metessem em medicina seria dificílimo porque odeio matemáticas e ciências, geralmente quem está em medicina é menos vocacionado para línguas, histórias e afins, e com certeza que o meu curso lhes seria dificílimo.

Há, isso é diferente, cursos mais trabalhosos que implicam muito teste, muito trabalho. Isso o meu não tinha porque tínhamos turmas de 200 alunos e seria incomportável, mas daí a ser mais fácil... pra quem quer passar uns anos a mais na faculdade do que os devidos, talvez seja.

joana disse...

comparar saúde a jornalismo tem piada, quando ainda há pouco saiu uma notícia em que dizia que o curso de jornalismo é considerado demasiado fácil pelos seus alunos. Trata-se de ser objectivo, a minha amiga vivia sozinha numa casa com 3 alunas da faculdade de direito do porto e todas diziam que era um curso marrão mas que era fácil, bastava estudar muito na altura dos exames.

Cláudia disse...

Acho que de facto não se pode comparar medicina a Direito. Embora nunca tenha frequentado medicina, frequentei direito e embora seja necessário estudar bastante, o grau de exigência diária não é comparável ao de Medicina, a meu ver. Mais não sendo pelo carácter quase diário da avaliação e pelo grau de responsabilidade e responsabilização exigido num curso que ensina a salvar vidas.

Claro que a maioria dos cursos se molda de forma bastante simples a um trabalho de part-time, não me parece que seja o caso de Medicina. Uma coisa é estudar por apontamentos o que são Direitos reais, outra bem distinta é saber exactamente como se diagnostica uma doença ou se aplica determinado tipo de tratamento essencial à vida humana.

Como disseram, nada disto tira o mérito do que conseguiste, mas há que ter em conta que muitas vezes são os próprios pais que preferem que os filhos se concentrem nos estudos enquanto o podem fazer. No meu caso, os meus pais enquanto eu estudei sempre me disseram que eu tinha uma profissão e que o meu salário era ter boas notas, nunca tive presentes por elas porque era a minha obrigação tê-las, mas também sempre preferiram que eu me concentrasse no que tinha para fazer, estudar.
Cada caso é um caso e não vejo qualquer problema, quando há condições em casa para isso, que haja esse investimento exclusivo na educação.
O que não invalida, obviamente, que haja muito marmanjo que se aproveite da boa-vontade dos pais e prolongue de forma vergonhosa esse investimento.

S* disse...

Cara joana, isso é tudo muito lindo mas há Jornalismo e jornalismo. Na Universidade do Porto, é um 3 em 1, já que o curso nos prepara para três áreas. É o curso de Ciências da comunicação: jornalismo, assessoria e multimédia. Considerado o melhor do país e com média de entrada de 16 valores.

E ainda gostava de saber de onde veio essa informação que os alunos acham o curso fácil... só se vier de outras faculdades, da U.Porto não vem certamente.

Conto de Fadas disse...

Eu não sei com quem andou a falar Joana para que lhe dissessem que Direito era fácil. Não percebo mesmo, na FDUP não é de certeza absoluta. Considerando que a média de notas lá na faculdade deve rondar entre os 11 e 12, não percebo a facilidade... temos um deputado no nosso Parlamento que era meu colega e tinha 2 na pauta E não foi um só. Hoje é deputado, não é estúpido nenhum e tinha 2.

Encantos, não vou comparar a quantidade de horas que tens de te dedicar entre Direito e Medicina porque nunca frequentei medicina. Sei que eu ia às aulas e perdia todos os dias entre 2 a 3 horas a fazer apontamentos, e mesmo assim não acabei com média alta. Independentemente disso, o que aqui se discute é dizerem que quem anda em medicina, coitado, não pode trabalhar... porque pode pode, basta precisar a sério.

E se eu não precisasse, também não tinha trabalhado na faculdade. Melhor para mim, ter-me-ia divertido muito mais e feito bastantes mais amigos! Felizmente sempre fui educada a preocupar-me com os outros e não a ser "umbiguista", a ser como a maioria dos meninos que querem estudar, fazer faculdade, mestrado, o raio que parta, e não querem saber se os pais estão a passar fome para lhes pagar isso. Trabalhar é que não pode ser, porque em medicina não se pode trabalhar ao mesmo tempo. Eu dou-vos já uma hipótese de emprego, sim? PT, horário part-time nocturno, entre as 20h e 24h! Aceitam toda a gente. :)

Cláudia disse...

Ponto 1) ser deputado em nada se prende com inteligência! Nada. Factor C, jotinhas, mil e uma explicações que vão além do merecimento ou da aptidão, portanto esse é um péssimo exemplo.

Ponto 2) em direito as médias são muito baixas porque há um conceito histórico de que as médias altas são para cursos fáceis. Já vem de Coimbra e os professores acolhem essa lógica desde de sempre e é, exaustivamente, relembrada aos alunos, sem qualquer pudor. Pelo menos na universidade que andei. A título de exemplo, eu tinha um colega brilhante na faculdade. Todos os professores tinham imenso respeito por ele e pelas suas capacidades, foi convidado para ficar a leccionar como assistente ainda não tinha acabado o 5º ano, foi a melhor média: 16V, a explicação para ficar a 4 pontos dos 20? 'Sabe, isto é direito, em direito é assim'.

Ponto 3) obviamente que a necessidade aguça o engenho e se não se tem onde ir buscar dinheiro para comer, há que procurar ou mesmo inventar alternativas. Quando se precisa mesmo, há tempo para tudo e mais um bocado; Mas eu aí ainda sou mais rígida e parafraseando o meu pai ‘que não tem condições não se estabelece e nem todos fomos feitos para doutores’.

Ponto 4) não trabalhar enquanto se é estudante tem, na maioria dos casos, muito pouco que ver com ser umbiguista. Certamente que se a tua mãe tivesse essa possibilidade preferia ter-te pago tudo sem te ver ter que passar por o que passaste. Porque quando um pai vê que o filho se esforça não tem porque lhe exigir extras.
Uma coisa é precisar, outra é querer ganhar uns trocos extra, outra ainda é’ viver à custa’, no sentido de estar sempre a exigir mesmo quando não se merece e se sabe que os pais não podem. Eu por exemplo, se soubesse que os meus pais não podiam nem sequer me tinha candidatado à faculdade, tão simples quanto isso. Mas, obviamente, as nossas próprias experiências moldam as nossas opiniões e a rigidez com que encaramos determinado tipo de assunto.

Sãozinha disse...

Não acredito que um curso de Medicina dê para acumular com trabalho. Aliás, basta ver que nos cursos para licenciados, como na Universidade do Algarve, os alunos comprometem-se a não trabalhar. Já Direito é outra conversa. Tinha colegas que trabalhavam e isso refletia-se nas notas, mas todos mal ou bem conseguiram acabar o curso. No meu quarto ano decidi que ia trabalhar mas os meus pais tiraram-me isso da ideia, dizendo que me podiam ajudar e que o mais importante era eu acabar o curso. Ainda bem que o fizeram, que se estudava e muito, na FDUL. E não era só para os exames, porque éramos avaliados nas aulas e nos testes intermédios, nos trabalhos. Por isso, quem puder não trabalhar, que o faça.

Conto de Fadas disse...

Encantos e Sãozinha, parece-me que eu nenhum momento eu disse "olha és rico mas tens de ir trabalhar". Eu disse que há muito miúdo umbiguista sim, daqueles que querem ir para a faculdade, os pais estão a passar literalmente fome (conheço uns casos; e já li no Shhhiu alguns pais a confessar que passaram fome para pagar os estudos aos filhos) e eles não mexem uma palha. É evidente que se se puder não se trabalhar, não se trabalha! Parece-me natural.

Quanto a não acreditar que se possa acumular com trabalho Sãozinha, como a Encantos disse "a necessidade aguça o engenho". Conheço 2 casos, um deles trabalha no McDonalds à noite e estuda pra médico durante o dia. :) Portanto é possível, porque ele precisa e pronto... tem de ser, tem de dar!

Quanto ao deputado, mais uma vez Encantos eu não disse que ser deputado tinha a ver com inteligência. Estou a dizer que o gajo é realmente inteligente. Toda a gente ficava impressionada a falar com ele, tem uma cultura muito, muito acima da média para idade. E mesmo assim as notas eram uma merda. Mas isso era só um exemplo, pouco relevante no caso.

joana disse...

a cultura tem muito pouco a ver com a média, mau era que ele fosse mau falador, sendo político. Agora dizer que direito é tão exigente quanto a maioria dos cursos de saúde é hilariante, quando a saúde se prende com um trabalho sistemático e de interpretação e o direito muito mais com memória.
Foi na Rua dos Bragas, Faculdade de direito do porto, iniciaram-se em direito em 2006 e terminaram no tempo suposto e continuam a dizer que em nada se compara com saúde.

Conto de Fadas disse...

Não vou continuar a discutir isso porque continuo a dizer que quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro. Só terá legitimidade para comparar esse género de situações quem frequentou Direito e os vários cursos de saúde, porque mesmo dentro da saúde há vários cursos.
O seu conhecimento de Direito é fraco se diz que o curso se prende muito mais com memória. História do Direito é memória, Direito da Família ou Direito das Sucessões de memória não têm nada. Mas pronto, deixe lá.

Sãozinha disse...

Joana, aqui concordarei com a Contos. Direito tem de tudo, mas se não perceber, também não vai a lado nenhum. O raciocínio jurídico não se decora, constrói-se. E, já agora, tenho vários amigos que tiraram cursos na área da saúde (nomeadamente Enfermagem) que dizem que o curso é fácil. Por isso, não tem a ver com facilidades, tem a ver com a carga horária de trabalho dos diferentes cursos, e a média com que quer sair deles.

* disse...

Joana, "quando a saúde se prende com um trabalho sistemático e de interpretação e o direito muito mais com memória", passei anos, mas anos, a ouvir Professores de Direito a dizer que esse curso, não tinha nada de memorização. Ninguem tem que saber as leis todas. Existem codigos e outra legislação precisamente para ser consultada. O que acontece é que o facto de trabalharmos frequentemente com a lei, acabamos por saber que preceitos jurídicos devemos aplicar ou onde se encontram. Só mais uma coisa, em relação ao facto de direito para si, não ser um curso interpretativo (ahahahah), um dos semestres de introdução ao direito, é precisamente para estudar a interpretação das leis, porque, pasme-se, estudar direito é na grande maioria das vezes, interpretar a lei, extrair a regra da fonte, encontrar a norma. A lei não é para ser aplicada apenas no seu sentido literal, é por isso que se formam juristas, caso contrario, qualquer pessoa que soubesse ler, poderia ser jurista não é? A meu ver, direito é um curso exigente, e o seu maior problema é ser tão mas tão subjectivo, e cheio das mais diversas Doutrinas. A parte da memorização pode funcionar para algumas pessoas, mas se não soubermos interpretar as leis, se não compreendermos as mil Doutrinas, entre todas as regras, então não somos juristas!

Conto de Fadas disse...

Há tanta variantes que nem vale a pena discutir e nem sei pra que se gera discussão... Eu só fiz este post porque, e repito: ME DIZEREM QUE QUEM ESTÁ EM MEDICINA NÃO PODE TRABALHAR. Pode. Se tiver de trabalhar, pode. Se não tiver, não trabalha e ora que bem! Mas se tiver mesmo, pode.

Porque há muita coisa que não se pode fazer, até não se ter outra hipótese. E assim como o outro está no macdonalds à noite e eu estive a atender na PT ou no Gato Preto, outros poderão e ninguém vai morrer disso...

Conto de Fadas disse...

Pronto *, é isso. Obrigada.

Sãozinha disse...

Desde que não estude no Algarve, pode...basta analisar bem isto para perceber porque é que toda a gente lhe está a dizer que é incompatível. Mas se queremos verdades absolutas, então tem razão.

Conto de Fadas disse...

Eu não quero verdade absoluta. Só estou a dizer que quem precisa, arranja um jeito. É isso.

Coquinhas disse...

Mas olha, uma coisa te digo, esse menino de medicina se for preciso é daqueles que mais se queixa da crise e afins. E não, não precisa, porque se precisasse metia o rabinho entre as pernas, calava-se e ia trabalhar. Felizmente, e porque estudei em casa, nunca precisei do esforço que tu fizeste, mas se tivesse que ser que remédio tinha eu. Trabalhei sempre aos fins-de-semana no que ia aparecendo e assim que fiquei mais vaga, na tese, fui para o call center. Como diz o povo "quem quer vai, quem não quer manda"

Wallis disse...

Bons estes posts, que dão para discutir uma data de coisas. Isso do fácil ou difícil é um bocado relativo. Só uma coisita, para as "ideias" que se têm dos cursos, no caso, o de Direito: se bastasse subsumir os casos particulares às leis não era preciso formarem-se pessoas, usar-se-iam máquinas.Isso sim, seria fácil, fácil e não seriam precisos advogados, magistrados, enfim, juristas.
W.